|maio 17, 2006|
a indústria do medo

a imprensa brasileira, na minha opinião, dá um destaque desnecessariamente exagerado para as desgraças do brasil e do mundo afora. exagera nas manchetes, cria muito sensacionalismo, e se aproveita pelo gosto do povo por desgraça para vender jornais e espaços publicitários. porque, admitamos, o ser humano tem gosto pela desgraça alheia. é só prestar atenção ao congestionamento causado pelas batidas de carro, causado pela diminuição da velocidade de quem passa, olhando curioso.
os acontecimentos deste fim de semana em são paulo chegaram ao cúmulo de fazer quase todas as redes de televisão alterarem a programação especialmente para mostrar novos ataques, sempre partindo do pressuposto que o pcc estava por trás daquilo. até a convocação da seleção brasileira, que sempre dá o que falar por dias, foi abafada pelo "terror" que se instaurou na cidade. terror, aliás, que foi causado pela própria imprensa. terror, pânico, medo.
a cobertura dos acontecimentos foi feita pela mídia de tal forma que os boatos se espalharam e ninguém desmentiu nada. o governador de são paulo não foi procurado (assim como não procurou a imprensa), enquanto a televisão (o canal record, por exemplo, ficou praticamente 24 horas direto só falando nos ataques do pcc) mostrava e repetia ônibus incendiados, reportagens sobre as mortes e enterros dos policias da noite de sexta-feira, e atiçava o medo mais e mais na população. e os boatos se espalhando, as pessoas deixando as ruas e o comércio às moscas. e as ruas entupidas.

mas isso não é de agora...

não sei já quanto tempo tem os programas "policiais" do final da tarde na televisão brasileira. falha-me a memória e bate a preguiça de pesquisar. mas desde que josé luis datena e seus companheiros, rivais e discípulos, mostram cada dia mais cenas de violência desmedida, dando ao telespectador a certeza de que ele pode ser o próximo, só o que se vê é medo.
no colegial eu tinha um amigo, com quem converso de vez em quando ainda hoje, cuja mãe não o deixava voltar muito tarde pra casa nem ir a certos lugares da cidade. ela sempre usava os mesmos argumentos quando tentávamos convencê-la de deixá-lo ir com a gente: "essa cidade é um perigo, é bandido por todo lado, você nunca sabe quando vai morrer". pôxa, tudo bem, tem que ficar mesmo esperto quando sai às ruas, mas deixar de sair já é bobagem. se trancar em casa não é a solução! além do mais, essa cidade é tão grande que as estatísticas podem marcar 1000 assassinatos por minuto, que ainda assim as chances de você ser pego é muito pequena. ou vocês acham fácil ganhar na loteria?
esses programas policias só mostram o lado ruim dos fatos. os telejornais quase só mostram desgraça. os jornais também. eu tinha uma certa raiva da globo quando ela punha umas matérias bobas sobre jardinagem (só pra dar um exemplo) nos jornais do horário do almoço, porque achava que havia muito mais coisa pra se mostrar. mas, poxa, mostrar um pouco de esperança, esquecer um pouco as desgraças de vez em quando, não mata ninguém! é só ter em mente que a violência está, sim, lá fora, e pode, sim, chegar aqui dentro. mas é bom lembrar que há coisas boas na vida, também, e que deixar de viver por causa da violência é bobagem!
e foi por praticamente deixar de viver, por medo de morrer, que o paulistano causou o maior congestionamento do ano (talvez da história) em são paulo. e a mídia só aumento os fatos, deixando na população a sensação de que o mundo estava prestes a acabar...

ps: é provável que essa paralização toda na cidade tenha ajudado no processo de finalização dos ataques. imagino eu que os bandidos se tocaram que o negócio não tava ajudando em nada nos "negócios" deles. estava, na verdade, dando prejuízo.

|felipejb @ 6:03 PM| || |mande para um amigo|
 
Comments: Postar um comentário